Youtubezação da TV
quinta-feira, 17 de setembro de 2009Você faz vídeos legais e coloca eles no YouTube? Você se amarra quando um vídeo seu ultrapassa os 50 mil views em menos de uma semana? Você goza litros ao ver o seu vídeo aparecendo no programa da Sônia Abrão, mesmo que você não ganhe crédito nenhum por isso, né? Você deve achar muito bacana ter um trabalho reconhecido nacionalmente, não?
Você é um idiota.

Cada vez mais a televisão brasileira exibe conteúdos retirados da internet. São raras as vezes que um noticiário não coloca meio às matérias algo relacionado ou diretamente chupado da internet. Os programas de variedades possuem blocos inteiros destinados a exibição de vídeos engraçados retirados do youtube. Os autores destes conteúdos nunca são creditados, mas ficam pulando de alegria por terem um de seus conteúdos aparecendo na televisão.
O que estes rapazes que sabem usar o Windows Movie Maker precisam saber é que a televisão é feita de dinheiro. Se ao ver um repórter entrevistando alguém, no fundo da tela, passar um caminhão com a marca da Skol, você pode apostar que a Skol pagou muito dinheiro por isso (exceto na MTV, que não sabe ganhar dinheiro com coisas assim). Do contrário a camera nunca estaria direcionada para aquela área.
O seu conteúdo, às vezes feito com muito suor, só é transmitido num canal de TV porque esse canal tem um retorno financeiro. Eles faturam com anunciantes, que pagam para que suas marcas apareçam meio a programação (que você está mantendo). Você não receber por isso, é parte culpa da emissora que chupa conteúdo da internet e parte culpa sua.

Se, ao postar um vídeo no YouTube você marcasse a opção “Não disponibilizar na TV”, a emissora jamais ganharia dinheiro com o seu conteúdo e, caso ganhasse, você poderia processar a emissora por ter roubado o seu conteúdo. Com isso os canais de TV parariam de chupar conteúdo da internet, o Gugu não mais teria um quadro de vídeos engraçados, a Sonia Abrão não exibiria mais vídeos de celebridades feitos por um moleque de 12 anos, a Sport TV não transmitiria um campeonato de Surf através de um aparelho celular e eu, talvez finalmente, poderia assistir um telejornal sem precisar descobrir que a Amanda, aquela jovem de 19 anos estuprada em Campinas, é uma pessoa que “segundo um site de relacionamentos da internet, é extrovertida e sincera, que ama os animais”.
Somos todos culpados pela cultura de levar a internet para a vida real. Somos os anos 80 de nós mesmos, com um pouco mais de direitos humanos e muito menos bom gosto para com a qualidade da nossa televisão. A vida real não é lugar para internet assim como a internet não é lugar para a Xuxa.
Pior que a orkutização do twitter é a youtubezação da TV e, daqui uns dias, a twitterização do jornalismo.